O medo de mostrar o que voce escreve e como lidar

O primeiro texto que mostrei para alguem que nao era da minha familia foi um conto curto sobre uma mulher que falava com gatos. Mandei por e-mail para uma colega de faculdade e passei as proximas 48 horas checando a caixa de entrada a cada quinze minutos. Quando ela respondeu com um simples achei legal, fiquei devastada. Nao porque o feedback era ruim, mas porque a vulnerabilidade de mostrar algo tao pessoal me deixou exposta de uma forma que eu nao esperava.

Esse medo e universal entre quem escreve. Nao importa se voce tem 18 ou 50 anos, se esta no primeiro texto ou no centesimo. Mostrar o que voce escreve e um ato de coragem que nao fica mais facil com o tempo. Ele so fica mais familiar.

De onde vem o medo

O medo de mostrar textos tem raizes em varios lugares. Existe o medo do julgamento tecnico: e se minha escrita for ruim? Existe o medo da exposicao emocional: e se as pessoas souberem demais sobre mim? E existe o medo mais sutil, que poucos admitem: e se ninguem se importar?

Dos tres, o ultimo e o mais paralisante. A rejeicao ativa pelo menos confirma que alguem leu. A indiferenca e o silencio total, e o silencio nao ensina nada.

Estrategias que me ajudaram

A primeira coisa que funcionou para mim foi escolher com cuidado para quem mostrar primeiro. Nao foi para minha mae, que elogiaria qualquer coisa, nem para um critico profissional, que me destruiria antes de eu estar pronta. Foi para uma amiga que tambem escrevia e que sabia o que significava estar naquele lugar de vulnerabilidade.

A segunda estrategia foi pedir feedback especifico. Em vez de o que voce achou, perguntar voce entendeu o que a personagem sentia nessa cena ou o ritmo do segundo paragrafo te pareceu lento. Perguntas especificas geram respostas uteis. Perguntas vagas geram respostas vagas.

A terceira, e talvez a mais importante, foi separar o texto da minha identidade. Meu texto nao sou eu. Se alguem critica um paragrafo, nao esta criticando quem eu sou como pessoa. Essa separacao e dificil no comeco, mas e fundamental para conseguir receber feedback sem desmoronar.

Publicar nao e o unico caminho

Existe uma pressao crescente para que todo escritor publique, compartilhe, construa audiencia. Mas publicar e uma escolha, nao uma obrigacao. Voce pode escrever a vida inteira e mostrar apenas para pessoas selecionadas. O valor da escrita nao depende de quantas pessoas a leem.

Dito isso, se voce quer publicar, comece pequeno. Um texto curto num blog pessoal, um trecho compartilhado num grupo de escrita, uma postagem numa rede social com alcance limitado. Cada exposicao pequena constroi a tolerancia necessaria para exposicoes maiores.

A coragem nao e a ausencia do medo

Depois de anos escrevendo e publicando, ainda sinto um frio na barriga toda vez que aperto publicar. A diferenca e que agora eu reconheco essa sensacao como parte do processo, nao como um sinal de que devo parar. O medo nao vai embora. Voce apenas aprende a escrever e a compartilhar apesar dele.

Se voce tem textos guardados que nunca mostrou para ninguem, saiba que esse e um dos lugares mais comuns do mundo da escrita. Voce nao esta sozinha nisso. E quando estiver pronta, comece com uma pessoa, um texto, uma pergunta especifica. O resto vem com o tempo.

A vulnerabilidade como forca

Com o tempo, descobri algo contraintuitivo: os textos que me deram mais medo de publicar foram justamente os que mais ressoaram com os leitores. A vulnerabilidade que eu tentava esconder era exatamente o que as pessoas queriam ler. Nao porque gostam de ver alguem sofrendo, mas porque a honestidade cria conexao.

Quando voce mostra suas duvidas, seus erros, suas hesitacoes, o leitor se reconhece. E esse reconhecimento e mais valioso do que qualquer tecnica perfeita ou paragrafo polido. A escrita que toca e a escrita que arrisca. E arriscar comeca com mostrar.

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