Quando lemos um texto fluido, claro e envolvente, raramente percebemos o quanto ele é fruto de escolhas precisas — de cada palavra, pausa e ritmo. No entanto, a verdade é que a maioria dos textos perde força não por falta de ideias, mas pelo excesso de palavras desnecessárias. Escrever bem é, em grande parte, um ato de cortar. A boa escrita nasce quando deixamos de tentar impressionar e passamos a comunicar.
Neste artigo, você vai aprender como eliminar o que pesa, simplificar o que confunde e encontrar o equilíbrio entre clareza e envolvimento — para que cada frase realmente funcione.
1. Por que as palavras em excesso enfraquecem sua escrita
Quando usamos palavras demais, criamos ruído. Frases longas, repetições e expressões vazias tornam o texto cansativo e tiram o foco do leitor. É o que acontece quando se tenta dizer “o máximo possível”, mas acaba dizendo “quase nada de forma memorável”.
A clareza não é inimiga da profundidade. Um texto simples pode ser profundo, desde que cada palavra tenha propósito. Pense em como um escultor trabalha: ele não adiciona pedra à estátua, ele retira o que sobra. Com a escrita, é o mesmo processo.
2. O poder da economia linguística
A escrita eficiente é como um bom diálogo: direta, viva e sem floreios desnecessários. Um dos erros mais comuns entre escritores iniciantes é confundir “sofisticação” com “complexidade”. Usar termos rebuscados ou explicações redundantes dá a ilusão de profundidade, mas, na prática, cria distância entre autor e leitor.
Compare:
- “A razão pela qual o personagem se encontra em um estado emocional de vulnerabilidade se deve ao fato de que ele não foi compreendido.”
- “O personagem está vulnerável porque ninguém o entende.”
A segunda frase é mais curta, direta e emocionalmente mais impactante. O leitor não precisa de mais palavras — precisa de mais verdade.
3. Palavras que você pode começar a eliminar hoje
Existem termos que enfraquecem frases por não acrescentarem nada. São os chamados preenchedores, que ocupam espaço sem trazer sentido. Abaixo, uma lista dos mais comuns:
- “Muito”, “bastante”, “realmente”, “literalmente” – intensificadores vazios.
- Exemplo: “Ela estava muito cansada” → “Ela estava exausta.”
- Exemplo: “Ela estava muito cansada” → “Ela estava exausta.”
- “De certa forma”, “de alguma maneira”, “talvez” – enfraquecem a afirmação.
- Exemplo: “De certa forma, o texto é bom” → “O texto é bom.”
- Exemplo: “De certa forma, o texto é bom” → “O texto é bom.”
- “Começou a”, “passou a”, “acabou por” – podem ser cortados em frases diretas.
- Exemplo: “Ele começou a correr” → “Ele correu.”
- Exemplo: “Ele começou a correr” → “Ele correu.”
- “Na verdade”, “então”, “basicamente” – vícios de fala que nada acrescentam.
- Exemplo: “Na verdade, o problema é a pressa” → “O problema é a pressa.”
- Exemplo: “Na verdade, o problema é a pressa” → “O problema é a pressa.”
- “Tipo”, “assim”, “meio que” – coloquialismos que tiram o foco.
Esses cortes deixam o texto mais firme e natural. Em geral, quanto mais precisa for a palavra, mais forte será o impacto.
4. Como revisar para alcançar clareza e ritmo
A revisão é o momento em que a mágica acontece. É aqui que a escrita boa se transforma em escrita excelente. Para eliminar o que atrapalha, siga este passo a passo:
Passo 1: Deixe o texto “descansar”
Após escrever, afaste-se dele por algumas horas (ou um dia). O distanciamento permite enxergar com mais objetividade e perceber excessos antes invisíveis.
Passo 2: Leia em voz alta
Ouvir o texto revela repetições, frases longas e pausas forçadas. Se você ficar sem fôlego antes do ponto final, a frase está grande demais.
Passo 3: Substitua palavras vagas por imagens concretas
Em vez de dizer “A sala era muito bonita”, experimente “A sala tinha paredes brancas e uma janela que deixava a luz entrar como uma bênção”. Clareza não significa secura; é possível ser vívido e direto ao mesmo tempo.
Passo 4: Questione cada palavra
Pergunte-se: essa palavra é necessária? Se o sentido da frase se mantém sem ela, corte.
Passo 5: Simplifique estruturas
Troque “por conta de” por “porque”; “no sentido de” por “para”; “em relação a” por “sobre”. Palavras curtas, quando bem escolhidas, conduzem o leitor com fluidez.
5. Clareza não é frieza
Há quem tema que eliminar palavras torne o texto frio ou mecânico. A verdade é o oposto. A clareza é o canal pelo qual a emoção chega limpa. Quando o leitor entende sem esforço, ele sente mais.
Observe:
- “Ela estava tão triste que parecia que o mundo tinha acabado para ela.”
- “Ela sentou no chão e olhou para o nada.”
Na segunda, há menos palavras, mas mais emoção. As imagens falam por si. Clareza não significa cortar sentimentos — significa escolher o que realmente os traduz.
6. Um exercício prático de depuração
Pegue um parágrafo que você escreveu recentemente e siga este pequeno treino:
- Conte as palavras.
- Corte 30%.
- Leia novamente.
- Se o sentido ficou mais direto, mantenha.
- Se perdeu fluidez, recoloque apenas o essencial.
Esse exercício é poderoso porque treina o olhar para o que é funcional na escrita. Você aprenderá a reconhecer o que sustenta o texto e o que o atrapalha.
7. Escrever é escolher
Escrever não é apenas expressar ideias, é decidir como expressá-las. Cada palavra é uma escolha entre clareza e confusão, entre peso e leveza. Um bom texto não é aquele que diz tudo, mas o que diz o necessário de forma inesquecível.
A eficiência na escrita não é inimiga da arte — é o que a revela. O leitor não quer ver seu esforço; ele quer sentir sua mensagem. Por isso, o segredo está em fazer com que cada frase pareça inevitável, como se não pudesse ter sido escrita de outro modo.
O poder do essencial
A escrita eficiente nasce quando você entende que menos é mais, mas só quando o “menos” é o essencial. Ao eliminar palavras desnecessárias, você cria espaço para o que realmente importa: o significado, o ritmo e a emoção.
Não existe clareza sem coragem. Coragem para cortar o que é bonito, mas não é útil; para abandonar vícios de estilo e confiar na força do simples.
Da próxima vez que escrever, lembre-se: o leitor não busca palavras — busca sentido. E o sentido, quando bem lapidado, fala mais alto do que qualquer adorno.



